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PAUL KLEE, O MAGO E A ESCLERODERMIA

Dr. Valderílio Azevedo

Médico reumatologista em Curitiba, Paraná.

“Quanto mais horrível este mundo se torna, mais a arte se torna abstrata.”

                                                       Paul Klee

 

Paul Klee nasceu e cresceu numa família de músicos e tinha nacionalidade alemã por causa do pai. Sua avó ensinou-o desde cedo a trabalhar com lápis e pincel. Ele sempre quis que vários de seus desenhos feitos na infância constassem no catálogo de suas obras. Klee entrou para a escola em 1886, aos sete anos. Com essa idade iniciou também seus estudos de violino. Aos 11 anos seu talento musical já era reconhecido e dessa forma entrou para a Orquestra da Sociedade de Música, em Berna. Ao mesmo tempo em que praticava seu instrumento predileto, Klee escrevia poesias e desenhava. Na sua juventude elaborou diversas caricaturas e desenhos satíricos, grotescos e surreais. Ele, entretanto, considerava que a composição musical já havia atingido seu apogeu enquanto como pintor julgava que poderia ser mais criador e radical. Estudou na Academia de Arte de Munique quando jovem e ali começou uma vida boêmia nos cafés sempre ladeado por  mulheres e bebidas. Klee conheceu sua mulher Lily numa sessão musical ocorrida em casa de amigos de seus pais. Ela tocava piano e ele, violino. Deste relacionamento tiveram um filho chamado Félix que cultivou uma paixão pelas obras do pai e preservou muito bem a memória artística dele.

De forma muito lenta, estabelecendo contatos com outros artistas, Klee foi se tornando um importante destaque na geração de artistas alemães  que tentavam desenvolver novas expressões para a sua arte. Foi membro e co-fundador do famoso grupo artístico “Os Quatro Azuis”.

Serviu durante a Primeira Grande Guerra Mundial, pintando aviões. Perdeu vários amigos artistas nessa época, em decorrência da própria guerra. Quando a guerra acabou em 1918, pouco antes do natal,  regressou a Munique e lá continuou sua vida como pintor e sua fama cresceu.

Em 1920, Klee tornou-se professor na famosa escola de Artes de Bauhaus. Ele desempenhou a função de professor mestre de teoria no atelier de encadernação até 1922 e depois dirigiu o atelier de pintura gravada em vidro e o de pintura mural.

Klee foi um jovem saudável no início de sua vida  adulta. Algumas cartas escritas por ele em 1933 sugerem a presença do fenômeno de Raynaud, principalmente em suas mãos. Em 1935 queixou-se de fadiga e  exaustão, sintomas inespecíficos mas que estão relacionados à própria esclerodermia. O seu diagnóstico definitivo de esclerodermia foi feito em 1936 e por recomendação de seu médico parou de fumar e visitou diversos spas.

 

O Peixe Dourado, 1925. Óleo sobre tela.

A produtividade artística de Paul Klee caiu substancialmente no início de sua doença, tendo produzido em 1936 somente vinte e cinco trabalhos. Mas embora sua saúde tenha se deteriorado progressivamente, nos anos seguintes ele passou por uma renovação artística e  produziu mil duzentas e cinqüenta e três obras em 1939, um ano antes de sua morte. No final de sua vida Paul Klee sofreu de várias alterações digestivas. Tinha dificuldade para deglutir alimentos e frequentemente só conseguia ingerir líquidos. Por causa de sua dificuldade para se alimentar ficava sozinho durante as refeições para não ser observado.

 

Chave Quebrada, 1938, realizado no período de sua doença.

Klee apesar da doença continuou expondo suas obras em seus últimos anos. Em fevereiro de 1940, ano em que faleceu  teve uma grande exibição de seus trabalhos na Kunsthaus de Zürich, onde expôs mais de 200 obras. Em maio daquele internou-se numa casa de repouso em Osrelina-Locarno. Sua falta de ar piorou sensivelmente e em decorrência disso acabou sendo internado no Hospital Sant´Ágnes em Locarno-Muralto. Seu falecimento por insuficiência respiratória e cardíaca se deu em 29 de junho de 1940.

Atualmente o Centro Paul Klee em Berna, na Suíça, é responsável pela pesquisa e divulgação da vida e da obra do artista e possui centenas de obras, incluindo desenhos, cadernos ilustrados, pinturas, esculturas e fantoches, além de cartas, rascunhos de cartas, vários documentos oficiais, livros, utensílios do pintor e álbuns de fotografias.                

 

Centro Paul Klee em Berna, Suíça.

 

Fotografia de Paul Klee em 20 de fevereiro de 1940.

É notório que durante os anos em que sofreu de esclerodermia Paul Klee adotou um estilo de pintura diferente daquele de sua obra anterior. Essa mudança foi gradual e profunda. Algumas obras caracterizam-se por extrema simplicidade e muita intensidade emotiva. Figuras abstratas foram pintadas com linhas pretas mais grosseiras, algumas parecem até mesmo pinturas primitivas ou realizadas por crianças. Nas suas últimas obras há muita introspecção e desespero: as cores assumiram padrões mais escuros e tristes, diferentes dos padrões mais claros e vivazes de décadas anteriores. O quadro ”Morte e fogo”, pintado no ano em que faleceu parece refletir isso.               Muitos autores consideram este quadro uma espécie de auto-réquiem de Paul Klee. Nele, a palavra “Tod” (morte) aparece por duas vezes, uma no rosto da figura e outra à esquerda do fantasmagórico crânio. Porém há nele elementos de esperança quase que transcedentais como o sol radiante do canto superior esquerdo.

       

Tod und Feuer (Morte e Fogo), 1940.

Paul Klee sempre foi um homem reservado e de pouca fala e, provavelmente por causa disso, parece ter sido tão misterioso para muita gente. Ele era muito auto-crítico e um crítico contumaz da sociedade que fazia parte. Foi um grande exemplo como artista e como ser humano, porque apesar de sua doença incapacitante jamais se permitiu desistir de seus sonhos e de sua arte.

                

Referências

  1. Partsch S, Klee, 2003, Ed Taschen GmbH
  2. Wolf G, Endurel: how Paul Klee´s illness influenced his art, Lancet, 1999, 353: 1516-1518
  3. Varga J, Illness and art: the legacy of Paul Klee, Current Opinion in Rheumatology, 2004 Nov;16(6):714-7
  4. Castillo-Ojugas A, the effect of rheumatoid arthritis in the life and work of 3 great painters: Auguste Renoir, Raoul Dufy and Alexis Jawlensky  An R Acad Nac Med (Madri) 1992;109(4):673-683
  5. Laidlaw J A, Paul Klee,Coleção Grandes Mestres, 2004, São Paulo, Ed. Ática
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