Sociedade Brasileira de Autoimunidade | SOBRAU  >  Novidades   >  Notícias   >  Sobre como entendemos os mecanismos desencadeantes de doenças autoimunes

Sobre como entendemos os mecanismos desencadeantes de doenças autoimunes


A regulação do sistema immune no ser humano é cuidadosamente organizada, de modo a que o organismo não sofra danos e que possa manter sua homeostase. Isto tudo graças à seleção clonal que ocorre durante o desenvolvimento de linfócitos, com concomitante destruição de células que reagem contra o próprio organismo (autoreatividade) e formação de células chamadas de linfócitos T reguladores (Treg).

As células Treg são capazes de inibir a proliferação de linfócitos tipo T (formados no Timo) in vitro, regulando a atividade de linfócitos T CD4+ e CD8+ in vivo. Você já ouviu falar destas subpopulações de linfócitos porque são as normalmente testadas em laboratório para verificar a evolução do HIV em dada pessoa.

Para poder ocorrer autoimunidade deve haver perda de tolerância aos antígenos próprios do indivíduo, causando resposta inflamatória que ataca órgãos e tecidos.

A patogênese (como as doenças se formam em seus mecanismos mais íntimos) das doenças autoimunes é hoje em dia estudada do ponto de vista de células T auxiliares (T helper, em inglês), além de distúrbios no balanço de resposta Th1 (autoimunidade por células) e Th2 (anticorpos e alergias). A artrite reumatoide tem sido nomeada como típica resposta autoimune Th1 (inflamação mediada por células), enquanto que o lúpus eritematoso sistêmico ocorreria por distúrbio tipo Th2 (envolvimento de anticorpos e de imunocomplexos circulantes, com depósitos em tecidos alvos e inflamação local, a chamada reação de hipersensibilidade tipo III).

Claro que outros teorias existem, como deficiências genéticas do sistema do complemento, mimetismo molecular falta de clareamento de complexos imunes que se formam em doenças como o lúpus, e outras teorias mais. A teoria do mimetismo molecular diz que bactérias na natureza invadem o organismo, suas sequências de proteinas são reconhecidas como algo estranho a ser combatido e, por acaso, a mesma sequência existe nos tecidos sadios do indivíduo – o resultado é que os anticorpos formados originalmente contra bactérias agora viram autoanticorpos, tendo como alvo não mais apenas as bactérias invasoras, mas também células sadias, gerando doença sistêmica por mimetismo das moléculas, ou seja há sequência de aminoácidos iguais tanto em um quanto em outro alvo.

De qualquer forma, hoje em dia está claro que no desenvolvimento de fenômenos autoimunes há combinação de uma série de fatores que não são propriamente imunes, mas também genéticos (porque doenças autoimunes diferentes ocorrem em uma mesma família?) e ambientais (aqui o mais importante são as infecções, por exemplo como desencadeantes de piora do diabetes mellitus tipo I, doença autoimune com anticorpos contra células produtoras de insulina no pâncreas). Ainda dentro dos fenômenos ambientais vemos um aspecto circular no binômio genética (tipo de DNA de cada pessoa) e fatores do meio ambiente, no caso a epigenética.

Mais a respeito da epigenética e de como se estuda as doenças autoimunes no próximo capítulo.