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SÍNDROME DE SJÖGREN, UMA DOENÇA EM EVOLUÇÃO


A Síndrome de Sjögren (síndrome sicca), que impede o funcionamento das glândulas salivares e lacrimais, atinge até 2% da população mundial. Pouco conhecida, porém não é rara. Assim pode ser considerada a doença crônica reumatológica autoimune denominada Síndrome de Sjögren. Conforme definição da Sociedade Brasileira de Reumatologia, esta é uma doença em que o sistema imunológico do paciente erroneamente ataca as glândulas produtoras de lágrimas e saliva. E, apesar da estimativa de que quatro milhões de norte-americanos sejam portadores desta enfermidade, a maioria não tem diagnóstico. Já no Brasil, não se sabe o número exato de doentes. 

Características. 
Na Síndrome de Sjögren os linfócitos, glóbulos brancos normalmente protetores do indivíduo, infiltram-se pelas glândulas produtoras de lágrimas e saliva. Características principais: secura nos olhos e na boca, secura de pele, nariz e vagina, podendo, em alguns casos, afetar órgãos internos do corpo, inclusive os rins, vasos sanguíneos, pulmões, fígado, pâncreas e cérebro. Fadiga e dor nas articulações podem comprometer de forma significativa a qualidade de vida do paciente. A síndrome é muito comum no consultório de Reumatologistas, associada ou não a outros reumatismos, e causando muito desconforto nas mucosas. 

Doenças autoimunes. 
Nas últimas décadas, o índice de ocorrência de síndromes reumáticas vem crescendo em todo o mundo. Há dois aspectos a serem considerados aqui. O primeiro é a maior sobrevida da população, com grande expectativa média de vida. Com o maior número de pessoas acima de 65 anos de idade, maior é o número de pessoas acometidas por reumatismos. O segundo fator é o enorme ganho da medicina em relação a novas e mais sensíveis técnicas diagnósticas, permitindo ao médico solicitar exames laboratoriais que com grande exatidão mostram a presença de uma doença reumática já em seu início. E os médicos vêm sendo instruidos sistematicamente que diagnóstico precoce significa melhor efeito do tratamento e, portanto, maior chance de a doença ser controlada em nível ideal, senão até curada.

A síndrome. 
Uma destas ocorrências é a Síndrome de Sjögren, com sintomas muito variados. O que chama mais a atenção é a sensação de areia ou de corpo estranho nos olhos, dificuldade de enxergar em ambientes muito claros ou ao sol, e também a boca ressequida. A pessoa não consegue deglutir ou mesmo mastigar sem ingerir líquidos ao mesmo tempo. O paladar fica embotado, a língua arde nos casos mais avançados. Em relação à mucosa do trato respiratório, tosse crônica e sem expectoração pode ocorrer, além de ressecamento da parte interna do nariz. Quanto à parte ginecológica, as pacientes se queixam de dor na atividade sexual por falta absoluta de lubrificação. Este é um problema sério, observando-se inclusive separação de casais por falta de diagnóstico e tratamento corretos.

Diagnóstico. 
Há vários testes diagnósticos, como o fator reumatóide, os autoanticorpos anti-SSA e anti-SSB, a cintilografia e a biópsia de glândulas salivares, bem como testes específicos feitos pelo oftalmologista. Em relação ao diagnóstico precoce, o melhor é sempre procurar o reumatologista, especialista que lida com este tipo de problema. O paciente pode começar também indo ao seu oftalmologista ou otorrinolaringologista, conforme suas queixas, mas o ideal é que questione da possibilidade de ter a síndrome sicca, como também é chamada a síndrome de Sjögren no meio médico. Isto porque com a hiperespecialização a tendência é de os profissionais médicos nem sempre fazerem a relação entre o sintoma localizado nos olhos, na boca ou na vagina com uma doença que em verdade está presente em todo o corpo do indivíduo, constituindo-se num reumatismo. Um diagnóstico diferencial também é muito importante, eis que muitos remédios podem gerar secura das mucosas, como os diuréticos, anti-hipertensivos, sedativos e anti-depressivos.

Órgãos afetados. 
Quanto aos órgãos afetados pela Síndrome de Sjögren, além das mucosas com os sintomas descritos acima, pode-se ter problemas neurológicos, seja cérebro ou extremidades (com formigueiros, dormências, nevralgias), alterações nos rins e também na pele, com manchas quando a pessoa se expõe ao sol (a chamada fotossensibilidade). E, é claro, dores nas juntas, pequenas e grandes, às vezes com franca artrite (dor, inchume, calor e dificuldade de movimentação). Vale a pena mencionar também episódios tipo “caxumba”, com grande inchume, calor e dor das glândulas parótidas, ao lado dos ouvidos.

Tratamento. 
O tratamento deve ser dirigido à substituição dos líquidos das mucosas com colírios que imitam lágrimas, saliva artificial, e agentes imunomoduladores como os anti-maláricos. Mais modernamente, e nos casos mais graves, agentes biológicos têm oferecido muito bom controle da doença. O objetivo é manter as glândulas funcionantes e que a doença não evolua. É fundamental a participação de dentistas, para cuidar de gengivites e cáries frequentes pela má qualidade ou inexistência de saliva, e de oftalmologistas e otorrinolaringologistas. 
Indispensável é a ótima hidratação da pessoa. Muitos pacientes levam garrafinhas com água na bolsa, para borrifar a boca sempre que necessário, além de seus colírios lubrificantes preferidos. Balas e doces devem ser evitados, porque auxiliam nas cáries e infecções da cavidade oral. Alimentos muito condimentados irão irritar ainda mais as mucosas da boca. Não há, no entanto, indicação de alimentos específicos que a ciência tenha determinado como sendo proibidos ou indicados para a doença.
Para todos os pacientes há o que oferecer como tratamento, amenizando dores, melhorando o pouco que resta de saliva ou lágrima, e trazendo melhor qualidade de vida. O reumatologista trabalha com outros especialistas, em conjunto, para atingir estas metas.

O futuro. 
Seria possível no futuro descobrir quem são as pessoas com predisposição para desenvolver Síndrome de Sjögren e tratá-las de forma preventiva? Os pesquisadores estão em seus laboratórios tentando com grande esforço chegar a esta condição, de poder identificar precocemente quem poderá ter a doença. Já sabemos alguns aspectos genéticos das pessoas com a síndrome de Sjögren, que determinam a presença de autoanticorpos no seu sangue e vários sintomas mais graves. Porém, ainda temos muito tempo pela frente até chegarmos a saber quais as causas exatas das doenças autoimunes e, daí, para saber que tipo de desarranjo interno do sistema imunológico gera esta peculiar doença.

Já entendemos muitos dos mecanismos de inflamação que acarretam o problema no íntimo das glândulas de mucosas, e já temos remédios que atingem especificamente as moléculas que mediam a destruição dos tecidos. É o caso das moléculas ditas biológicas. Estes novos remédios não são agentes químicos, como os remédios tradicionais, mas se trata de proteinas, de anticorpos com alvos bem determinados, com extrema especificidade. Ao bloquearmos uma molécula que pode ser a vilã da síndrome de Sjögren, podemos bloquear a doença e evitar seu avanço. Antevejo um futuro próximo em que saberemos quais são as moléculas que mais causam dano às glândulas de mucosas e que poderemos bloquear sua ação com remédios ou vacinas específicas. Mesmo sem saber a causa do problema, estaríamos impedindo sua evolução e trazendo qualidade de vida ao paciente.