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REACENDA SUA PAIXÃO: O SEXO E OS REUMÁTICOS


“Pelo toque de um amante, todos se tornam poetas” – Platão

Esta afirmação pode ser um exagero, mas não podemos negar que o toque e a intimidade são partes muito importantes das nossas vidas e da nossa saúde. De fato, dezenas de estudos revelam que uma vida amorosa saudável reduz o estresse e libera as endorfinas que fazem a pessoa se sentir bem e que auxiliam a manter-se jovial. Existem, inclusive, pesquisas que mostram que o simples toque de uma pessoa amada pode reduzir a dor. Então, porque não estamos prestando atenção a esta possibilidade saudável nas nossas vidas?

Em suma: nós estamos ocupados, cansados e, se você tem artrite ou uma condição relacionada, pode não ‘estar a fim’ e  por várias razões válidas. Afinal, quando desabotoar a sua blusa já parece um grande desafio, não vai ser o romance que estará nas suas prioridades ou mesmo uma vontade sua. Por outro lado, provavelmente seu médico  ao lhe diagnosticar não deu conselhos sobre como restaurar a sua intimidade física.

“Esta não é uma área em que a maioria dos reumatologistas recebe treinamento ou orientação para falar com seus pacientes, e por isso este assunto não é conversado em consultório e nem costuma ser indagado pelos pacientes”, diz o Dr. James MacKoy, reumatologista em Honolulu.  “É  irônico que discutamos quase tudo  que ajude no dia-a-dia de uma pessoa com artrite, como por exemplo formas de proteger as juntas, ou de  modificar as atividades, mas falar sobre intimidade e sexo parece ser um tabu”, acrescenta o Dr. James.

Ignorar o problema pode ser devastador. “Eu tenho visto pessoas se divorciarem por causa disso – o paciente ou seu parceiro não conversaram sobre as repercussões físicas e emocionais que a artrite causa na sua vida sexual”, diz o Dr. James.

As próximas dicas vão lhe ajudar a descobrir o que está apagando a chama da sua vida amorosa e o que você pode fazer para reacendê-la:

  1. CONVERSE: “O maior problema é a falta de comunicação” diz Ann M. Newman, uma professora da escola de enfermagem da Universidade da Carolina do Norte que estudou artrite e sexualidade. “Pacientes me contam: ‘se o meu parceiro apenas soubesse como é sofrer com a artrite ou como eu me sinto com ela,’  e eu digo: ‘FALE PARA ELE/ELA!”. Newman, enfermeira da área de psiquiatria, sugere aos pacientes que usem frases que comecem com “EU”, como por exemplo: “Eu me sinto triste quando eu quero fazer amor mas estou com dor ou quando ainda não estou no clima. O que eu preciso de você é um pouco mais de tempo de carícias e brincadeiras, ou preliminares” . Somente desta forma o parceiro vai saber como você está se sentindo.

Terapia também ajuda pessoas com artrite que se sentem sozinhas ou alienadas, pois auxilia a lidar com esta condição. Em um estudo dos EUA sobre mulheres com dor crônica,  conversar com um terapeuta ou um psicólogo em uma sessão de terapia de grupo melhorou o aproveitamento sexual de todos os participantes,  até mesmo quando o nível de dor e fadiga permaneciam os mesmos.

  1. SEJA CRIATIVO: Vamos ser sinceros: a posição “papai-e-mamãe” pode colocar muito estresse nas partes que doem quando você tem artrite. Então, os parceiros precisam estar dispostos a experimentar algo novo, pelo menos  um pouco. “Isto não quer dizer que precisem ser radicais. Nós estamos falando de utilizar posições como lado a lado, ou de usar alguns travesseiros com criatividade”, diz Geralyn Datz, psicóloga da dor e PhD em Comportamento em Hattiesburg, EUA.  Realmente, a melhor posição para um casal que tenha que lidar com artrite é qualquer posição que funcione para eles, diz Cory Silverberg, um terapeuta sexual em Toronto e co-autor do “The Ultimate Guide to Sex and Disability” (Cleis Press, 2007). “A única maneira para você achar a sua melhor ou mais confortável posição é conversando e tentando uma variedade de movimentos,” diz o terapeuta. 

“Ser criativo pode significar não ir até o fim,  mas focar no toque,  o que alguns estudos têm demonstrado trazer maior excitabilidade e liberar endorfinas que fazem cessar a dor. Para os mais aventureiros tem sempre o advento dos brinquedos/jogos  sexuais que podem ser facilmente utilizados sem estressar as juntas ou músculos sensibilizados pela doenças”, diz Silverberg.

  1. LIVRE-SE DA CULPA: “A culpa em nada ajuda, tanto à pessoa que está com medo de ferir o parceiro durante o sexo, quanto o parceiro que se sente mal por não querer fazer sexo mais frequentemente ou precisa de muitos cuidados” diz Newman, “isso é extremamente desestimulante”. “De fato, você pode se sentir culpado por alguma coisa que o seu parceiro talvez nem se importe”, diz Datz. “Eu pergunto aos meus pacientes: quão importante é o sexo? Seria uma percepção sua que você está desapontando seu parceiro ou seria isto uma realidade de fato?”.
  2. REPENSE O QUE ‘INTIMIDADE’ SIGNIFICA: “Para muitos pacientes transar não está no topo da lista de prioridades quando se trata de reconectar com seu parceiro,” diz Datz. Muitas vezes eles tomam atitudes radicais, diz ela, eles se convencem de que como dói muito o sexo físico, então preferem nem ter outro contato como o simples beijar, segurar a mão, olhar nos olhos ou qualquer coisa que evoque a intimidade. Muitas vezes os casais têm que descobrir o que realmente eles querem um do outro e reaprender o básico sobre intimidade. Pois, acima de tudo, intimidade não implica o coito; não precisa sequer do toque e pode significar assistirem a uma comédia na TV ou cozinhar juntos. Seria qualquer atividade que os aproximasse.
  3. MARCAR UM ENCONTRO. “Nós somos ensinados que o sexo supostamente é uma coisa que vem naturalmente, como o amor verdadeiro, mas estes são mitos”, diz Se você tem artrite, o momento certo é tudo no departamento da sexualidade. Pode ser muito útil manter um diário para ajudar a ver em que momentos você sente mais desejo, libido. Se seu medicamento da artrite lhe deixa nauseado ou tonto, anote para saber quando  estes  efeito  colaterais se apresentam piores. Se você sente muita dor pela manhã, escreva isto e planeje sua vida sexual para quando você se sentir no seu melhor momento. “Eu tenho uma amiga que tem lupus e ela sente dores terríveis, mas ela é mais ativa sexualmente que muitas pessoas que eu conheço. O seu segredo: ela marca um encontro.  Ela e o marido planejam  seu encontro sexual e ao invés de dizer ‘não porque eu estou com dor’, ela vai passar mais tempo se preparando: ela vai tomar um banho quente, vai tomar sua medicação e vai estar mais relaxada.”
  4. SE FOR HOMEM, TENTE VIAGRA: Este medicamento para disfunção erétil – assim como os outros no mercado (Cialis e Levita) – podem ajudar a diminuir os efeitos de redução da libido provocada pelo uso dos inibidores de receptores de serotonina e outros antidepressivos, que algumas vezes são prescritos para ajudar os pacientes a lidar com a depressão, sintomas que  muitas vezes acompanham a dor crônica. “Antidepressivos podem reduzir a libido em homens e mulheres e diminuir a capacidade de desempenho sexual do homem”, diz Don Muller, um farmacêutico da Universidade Estadual de Dakota do Norte, EUA.  “Mudar o antidepressivo até achar um que não diminua a sua libido é uma opção para homens e mulheres”, diz Muller, mas “para alguns homens pode ser eficiente apenas usar o Viagra para  eliminar os efeitos colaterais”. Outra opção: injeções de testosterona que podem afastar o efeito de longa duração dos opióides.
  5. SEJA MAIS FLEXÍVEL FISICAMENTE: “Para pessoas com dor crônica o corpo pode parecer um inimigo”, diz Lembrar-se do que o seu corpo pode fazer e alongando-o um pouco, pode lhe  dar uma boa erguida no seu físico e emocional, diz ele. Infelizmente, um estudo da Universidade de Maryland revela que a maioria dos adultos com artrite não se exercita, provavelmente por medo de dor e de lesões. Mas uma maneira de se alongar de forma segura e aumentar a sua força muscular é através da prática do Yoga, o que muitos estudos mostram pode reduzir a dor, aumentar a capacidade de movimento e melhorar o equilíbrio e flexibilidade. “Procure por um estúdio de  Yoga que tenha um professor que pratique-a de forma mais gentil ou suave e de preferência que entenda de artrite”, diz Silverberg.

 

QUATRO MANEIRAS DE A ARTRITE SABOTAR A INTIMIDADE SEXUAL

  1. Você tem dor. Faz sentido que quando você tem dor você  se sinta menos interessado em sexo, ou até mesmo em segurar a mão da pessoa amada. Às vezes apenas o medo de sentir dores pode colocar ‘um balde de água fria’ no seu relacionamento ou na sua vida sexual. “Eu tenho pacientes que têm medo de fazer sexo por causa da dor” é uma constatação comum no consultório dos reumatologistas.
  2. Você está exausto. Fadiga é um fato para muitas pessoas com vários tipos de artrite – desde artrite reumatoide até a Síndrome de Sjögren. “A fadiga é provavelmente a minha maior reclamação”,  diz E. Counter, 26 anos, que tem artrite juvenil. “A minha dor e inchaço estão controlados, mas o meu estado de cansaço é o que atrapalha a minha vida sexual”.
  3. Você não se sente bem consigo mesmo. É comum que a autoestima seja afetada em pessoas que sofrem de artrite ou de dores crônicas. “Eu escuto muito meus pacientes dizerem: ‘porque alguém vai me querer?! Eu sou defeituoso!’”, relatam os reumatologistas. Quando a autoestima despenca,  seja por causa da pessoa se sentir não-desejada ou depressiva, seja porque não consegue fazer as coisas que realizava antes da doença, ou seja por não conseguir trabalhar ou fazer uma atividade física, da mesma forma cai o interesse em intimidade e sexo.
  4. Você não sente tesão. Além do problema que a baixa autoestima causa no seu tesão, os medicamentos que ajudam os pacientes a lidarem com a dor crônica e a rigidez da doença (sejam eles antidepressivos, anti-inflamatórios, corticosteróides ou opióides para dor)  também  causam problemas que afetam a intimidade sexual. Opióides podem causar constipação e fadiga. Antidepressivos e corticosteróides podem reduzir a habilidade de ter uma ereção ou orgasmo. E  anti-inflamatórios podem lhe deixar nauseado. E até mesmo os medicamentos para pressão alta podem diminuir a sua resposta sexual. O fato é que você não vai estar ‘’no clima” se a sua medicação estiver lhe trazendo para-efeitos como enjôos, e seu parceiro pode não entender a situação.

Modificado de Anne Krueger,  Revista Arthritis, EUA  – dezembro de 2010.