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POR QUE EU? O QUE CAUSA O LÚPUS…TALVEZ


Artigo elaborado por Vivian Magalhães como um resumo do Capítulo 3 do livro “Living with Lupus: all the knowledge you need to help yourself” (Vivendo com Lúpus: Todo o Conhecimento que Você precisa ter para ajudar a sim mesmo, de Sheldon Paul Blau e Dodi Schultz).

Antes de discorrer sobre o que causa o lúpus, é importante falar sobre o que definitivamente NÃO o causa. 
Nos anos 70, um informativo foi distribuído nos estabelecimentos de saúde nos Estados Unidos, alegando que o lúpus era uma doença que estava crescendo muito, “principalmente por causa dos hábitos sexuais mais permissivos”, já que era “geralmente, se não sempre, transmitido sexualmente”.

TRANSMISSÃO SEXUAL?

É importante salientar que o lúpus não é transmissível sexualmente, nem por qualquer outro meio. Embora possa haver um agente infeccioso envolvido, não há um agente que possa transmitir a doença de uma pessoa para outra. Não se sabe ainda o que causa o lúpus, mas a teoria atual é a de que há fatores que podem de alguma forma interagir para causar a doença.

ESTATÍSTICA E GENÉTICA

Costuma-se dizer que lúpus tende a se manifestar em família, mas não é o caso. Há padrões definidos para doenças como a hemofilia e a fibrose cística, essas sim doenças hereditárias: a possibilidade de passá-las para um filho pode ser matematicamente calculada e situa-se entre 25 e 100%. 

Este não é o caso do lúpus, uma vez que a chance de uma pessoa com lúpus ter um filho que mais tarde desenvolverá a doença é de apenas 5%. Ao todo, aproximadamente 20% dos pacientes lúpicos têm um parente de primeiro grau (pais, irmãos ou filhos) com alguma doença autoimune, que pode ser lúpus, artrite reumatoide, diabetes, esclerose múltipla ou qualquer outra. Outros 15 a 20% dos familiares de pacientes de lúpus terão alterações nos seus exames, como nos anticorpos anti-nucleares (FAN), sem, entretanto, apresentarem sintomas de doença autoimune.

No caso de gêmeos bivitelinos, ou seja, aqueles gerados a partir de dois óvulos fertilizados, há uma chance de apenas 3 a 5% dos dois terem lúpus. Já no caso de gêmeos univitelinos, ou idênticos, há uma probabilidade bem maior, entre 22 e 70%. Isso é impressionante e seguramente sugere algum fator genético, mas este claramente não é 100%.

Ter um gêmeo univitelino não significa, necessariamente, que alguém terá lúpus, logo não há um gene específico para lúpus. A probabilidade maior de gêmeos idênticos desenvolverem a doença significa apenas que há uma suscetibilidade herdada, e que outros fatores adicionais precisam estar presentes para que a doença se manifeste.

Atualmente a epigenética explica esta discrepância, o que será tema de uma próxima postagem. Por ora você pode aprender aqui, em inglês e em espanhol: http://www.microsiervos.com/…/ci…/epigenetica-explicada.html.

DISTRIBUIÇÃO RACIAL E POR SEXO

Outro fato que parece sugerir que o lúpus tem um fator genético é a sua distribuição racial. Estima-se que a doença ataque 1 em 700 mulheres entre 20 e 64 anos. Mas entre as mulheres negras norte-americanas na mesma faixa etária, a probabilidade é de 1 em 245, quase três vezes mais provável. O lúpus também é mais prevalente entre asiáticos, indígenas americanos e hispânicos, do que entre a população caucasiana. 

No que diz respeito ao gênero, o lúpus ataca pelo menos oito a nove vezes mais mulheres do que homens. Isso também poderia sugerir um fator hereditário ligado ao cromossoma “X”. No entanto, como já foi dito, nunca foi encontrado um gene causador do lúpus, e é improvável que haja algum tipo de informação genética no cromossoma “Y” que proteja os homens, assim como o estrogênio protege as mulheres férteis das doenças vasculares.

E OS HORMÔNIOS?

No que diz respeito a este hormônio feminino, com o lúpus acontece o contrário. Lúpus já foi diagnosticado em bebês e em nonagenários, mas no maior número de casos a doença começa entre a adolescência e os 40 anos, e a proporção entre mulheres e homens afetados pode chegar a 15 por 1. Depois da menopausa, entretanto, esta proporção cai a 2 para 1. Nos Estados Unidos, o número de casos de lúpus entre meninas entre 11 e 12 anos, justamente no início da puberdade, tem crescido significativamente. O mesmo hormônio que protege contra as doenças cardíacas poderia estar contribuindo para a manifestação do lúpus?

Alguns pesquisadores sugerem que a importância dos hormônios sexuais pode não ser explicada pela quantidade em que são produzidos, e sim pela maneira como agem no corpo. Um estudo demonstrou que pacientes lúpicos de ambos os sexos metabolizavam estradiol, um tipo de estrogênio, de maneira diferente em relação a outro grupo de voluntários saudáveis. Outro estudo apontou um aumento na atividade da aromatase, uma enzima que converte andrógenos circulantes em estrógenos. 

Voltando ao exemplo dos gêmeos, se uma mulher de 35 anos desenvolve lúpus e a sua irmã gêmea, com exatamente os mesmos fatores de risco genético, não, temos que concluir que esta paciente tem algum outro fator de risco que a sua irmã não tem. Logicamente, tem que ser alguma coisa no ambiente. Cada vez mais, os fatores ambientais que mais têm gerado suspeitas são os vírus em geral, e algumas categorias de vírus em particular.

CAUSAS VIRAIS POSSÍVEIS

Numa conferência sobre lúpus em 1992, os pesquisadores já haviam reportado estudo feito com um grupo de pacientes com lúpus, um segundo grupo com artrite reumatoide, e um grupo de controle, que não apresentava qualquer doença autoimune. Os três grupos foram testados para detectar a presença do vírus HHV-6 (Human Herpes Virus 6). Eles encontraram uma infecção ativa em 44% dos pacientes com lúpus, contra 2,3% e 6%, respectivamente, nos outros dois grupos. 

Ao longo dos anos, vários vírus do tipo RNA (retrovírus) têm sido apontados como possíveis responsáveis, ou pelo menos “colaboradores”, nos casos de lúpus. Muitos pesquisadores reportaram proporções significativas de pacientes lúpicos com anticorpos para retrovírus. Num dos estudos, a porcentagem era de 55%, comparado a 3% em grupos de controle. Outros estudos reportaram níveis comparativamente altos de anticorpos aos vírus influenza e aos paramixovírus, especialmente o tipo causador do sarampo. Há indicações, portanto, de que um retrovírus possa estar envolvido com o surgimento do lúpus e também da síndrome de Raynaud (extremidades com alterações de cor e circulação após exposição ao frio).

É bom lembrar que os anticorpos são produzidos pelo corpo apenas em resposta a antígenos. Se os anticorpos estão presentes, é porque a pessoa teve contato com o antígeno correspondente, o qual gerou esta resposta imunológica.

O retrovírus possui uma arma eficiente, uma enzima chamada de transcriptase reversa, que permite a ele converter o seu RNA (ácido ribonucleico) em DNA e, assim, entrar numa célula sem ser detectado. Lá ele poderá ficar por um longo tempo, anos talvez, até que algum sinal o ative. 

É bastante possível, então, que quando a causa do lúpus for descoberta, ela seja um vírus que se comporta de uma maneira diferente em alguns indivíduos—talvez aqueles com uma determinada característica genética. Mas ainda mais provável é que este aja como um “vírus lento”, causando uma doença inicial, e depois permanecendo no corpo e causando uma enfermidade distinta bem mais tarde. Provavelmente há um fator ou agente que ativa o vírus e permite que sobreviva durante o período entre a doença inicial e a sua reativação. 

Sem dúvida, a família mais conhecida de vírus que são capazes deste tipo de comportamento é a família dos herpes vírus, que persistem em vários tipos de tecidos do corpo, aparentemente resistentes às sentinelas do sistema imunológico. Eles são capazes de ressurgir repetidas vezes para causar episódios da mesma doença, como é o caso do herpes simples, que permanece na pele e nas mucosas e pode gerar aftas, pequenas feridas ou lesões genitais. Ou podem desencadear um problema completamente diferente, e mais grave, num aparecimento posterior. O varicela zoster, que na infância causa catapora, depois refugia-se no tecido nervoso e pode ressurgir como herpes zoster.

MICOPLASMAS

Uma outra classe de agentes infecciosos são os micoplasmas, que não são bactérias nem vírus. A maioria dos micoplasmas não causa enfermidades em humanos. Apenas poucas espécies foram relacionadas a problemas em pessoas, como alguns casos de infertilidade, pneumonia e abortos espontâneos recorrentes. Um estudo publicado em 1992 por pesquisadores de Harvard encontrou uma infecção por micoplasma em 63% das análises de urina de pacientes com lúpus, contra 4,5% do grupo controle. 

Há, portanto, a possibilidade de que o desenvolvimento do lúpus, assim como outras doenças autoimunes, exija a combinação de dois ou mais agentes infecciosos simultaneamente atacando um indivíduo geneticamente suscetível e dando início a uma reação incontrolável do sistema imunológico. Ou talvez o vírus seja ajudado ou estimulado por outros fatores na vida ou estilo de vida do indivíduo. Em outras palavras, fatores ambientais.

E O SOL?

Tem sido observado que alguns fatores podem agravar os sintomas do lúpus – o sol, por exemplo. Até 50% dos pacientes com lúpus são fotossensíveis. A luz do sol isoladamente não causa lúpus, mas pode ter um papel importante se combinado com outro fator. Um vírus, talvez?

MEDICAMENTOS COMO INDUTORES DE LÚPUS

Alguns medicamentos, incluindo antibióticos corriqueiros como a tetraciclina, podem induzir ou piorar a fotossensibilidade. Algumas drogas, assim como outras substâncias, podem até causar uma síndrome semelhante ao lúpus, que regride após a retirada do agente indutor. Ninguém sabe se essas substâncias, provavelmente em combinação com fatores genéticos, virais e outros, desempenham um papel no desencadeamento do lúpus.

Aqui você pode ver uma lista parcial de medicamentos indutores de lúpus e de outras síndromes autoimunes: http://www.scielo.br/scielo.php….

ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO PODEM CAUSAR LÚPUS?

Outro fenômeno que sugere a incidência de fatores ambientais é a ocorrência coincidente de doença autoimune em pessoas e seus animais de estimação. Enquanto a maioria das doenças afeta animais ou humanos, mas não ambos, há exceções, incluindo algumas infecções virais como a famigerada gripe suína e a encefalite equina, bem como infecções por fungos como alguns tipos de micoses que crianças pegam de filhotes de cachorros e gatos.

Os cachorros, como os americanos descobriram em 1991, podem ter lúpus. Naquele ano, o então presidente dos Estados Unidos, George Bush, recebeu um diagnóstico da doença de Graves, um transtorno autoimune da glândula tireoide. A sua esposa, Bárbara, tinha a mesma doença, diagnosticada no ano anterior. E no verão daquele ano, o cachorro da família, Millie, foi diagnosticado com lúpus. 

E há, também, o caso de Teeny, a gata de uma moça diagnosticada com lúpus. Teeny ficou doente aos seis meses, e o diagnóstico foi de anemia hemolítica autoimune. A pergunta é se Teeny “contraiu” a doença autoimune de sua dona, ou se havia algo no ambiente a que as duas eram suscetíveis, mas a que o marido da paciente e seu filho eram imunes. Também há dúvidas se a doença de Teeny ou de qualquer outro gato pode ser chamado de lúpus, embora todos os seus sintomas – anemia, fadiga, dor nas articulações, sede excessiva—sejam características do lúpus humano. Seja qual for o nome, definidamente é uma doença autoimune. 

Um grupo de imunologistas em Londres conduziu um estudo com 50 pacientes lúpicos que tinham animais de estimação. Todos os cães estavam aparentemente bem, mas exames de sangue comparados com o grupo controle revelaram níveis anormalmente altos de imunoglobulinas em 33% desses cães, comparados com o grupo de controle.

Os pesquisadores cautelosamente concluíram que esses dados “apoiavam” a ideia de que fatores ambientais em comum, ou agentes transmissores, poderiam desempenhar um papel no surgimento do lúpus, mas que mais estudos nesta área seriam desejáveis. 

Também técnicos de laboratório, os mesmos que conduzem os testes com soros de pacientes lúpicos, apresentam em certa frequência um teste positivo para autoimunidade, como o FAN (Fator Antinuclear). Estes, no entanto, não apresentam nem desenvolverão a doença, apenas o achado laboratorial.

CONCLUSÃO

Em conclusão, muito ainda está para ser estudado. Infelizmente neste início do século XXI ainda devemos dizer que desconhecemos a causa exata de doenças autoimunes, especialmente do lúpus eritematoso sistêmico.