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Aspectos emocionais nas Espondiloartropatias


Um dos fatores importantes a serem levados em consideração quando um paciente é diagnosticado com uma doença autoimune, crônica e degenerativa com curso de dor, como é a ESPONDILITE ANQUILOSANTE é atentar para a parte psico-emocional dos doentes, já que podem ser devastadores os efeitos emocionais que este reumatismo provoca.

Embora não seja uma doença considerada curável, os tratamentos disponíveis, quando aplicados adequada e precocemente, oferecem alívio da sintomatologia (inflamação e dor), interrompendo a progressão danosa da moléstia. Assim, há melhora na qualidade de vida global, tornando a vida quase normal quando eficientes os tratamentos.

Todavia, muitas vezes o que acontece na prática é um considerável atraso no início dos tratamentos medicamentosos, por dificuldades no próprio diagnóstico, ou mesmo uma demora na efetividade  e sucesso dos fármacos utilizados, causando grande impacto emocional. O tempo de sofrimento causado pela dor física e a angústia por encontrar um alívio eficaz para esta sintomatologia toda da doença empurra a pessoa a uma verdadeira via crucis psicológica. O que sucede na prática é a visível necessidade de uma intervenção psicológica de suporte à doença, o que pode auxiliar no sucesso terapêutico e na própria recuperação do paciente. Embora sejam poucas as pesquisas no Brasil sobre as questões psico-emocionais de espondilíticos, a sua importância vem se mostrando cada vez maior dentro do conjunto terapêutico multidisciplinar que a espondilite anquilosante demanda. Obtém-se então uma maior compreensão da relação saúde/doença, abrindo espaço para a Psicologia da Saúde, uma disciplina que visa a promoção, educação da saúde e prevenção da doença.

A questão fulcral repousa no fato de que a espondilite anquilsante traz consigo uma grande ansiedade, acompanhada ou não de depressão como forma de adaptação à doença em face das ameaças e grandes dificuldades que ela causa ao longo do decurso da moléstia. Pode-se enumerar facilmente como fatores desencadeantes destes processos emocionais:

1) a dor crônica que oscila muito ao longo do tempo,

2) a rigidez articular especialmente da coluna, quando não acompanhada também de rigidez de articulações periféricas com dor, o que incapacita o paciente causando grande dano emocional,

3) a perda da capacidade de trabalho e, nesta senda, o risco do desemprego e, ainda, 

4) a dependência em situações rotineiras como higiene pessoal, transporte e alimentação.

Situações estas que, sendo vivenciadas de forma crônica, inevitavelmente geram uma experiência contínua de grande sofrimento, fraqueza, inferioridade, aliás, sentimentos compreensíveis e naturais, mas que precisam de atenção.

Tais problemáticas constantes que a espondilite anquilosante causa obrigam a pessoa a fazer grandes alterações e adaptações em face da doença, o que pode ser muito impactante do ponto de vista de como ele percebe sua doença, chegando às vezes a transtorno do pânico e depressão. Estas conhecidas disfunções psicológicas ultrapassam muitas vezes a esfera individual do paciente e atingem os familiares próximos, demonstrando a grande urgência de se dar a devida atenção a este aspecto emocional. É evidente aos reumatologistas que a piora emocional do portador prejudica inclusive as respostas terapêuticas, podendo ser precursora de agravamento nas dores e inflamações. 

Recentemente uma tese de doutorado realizada pela Universidade do Mato Grosso do Sul (http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFMS_6f3339aad44aa3c17238217232eb0b75/Description#tabnav) apresentou dados surpreendentes sobre a relação de algumas doenças que partilham características genéticas, clínicas e alterações estruturais nos exames de imagem, com repercussões emocionais, que afetam diferentes aspectos da vida social dos indivíduos. O objetivo foi de identificar a ocorrência de transtornos psiquiátricos em pacientes com espondiloartrites atendidos em Núcleo do Hospital Universitário de Campo Grande/MS. No resultado foi encontrado um elevado percentual de 65% dos pacientes com espondilite anquilosante que apresentou transtornos psiquiátricos, sendo os mais comuns a depressão e a ansiedade. O grupo que mais apresentou distúrbios – em 91% – foi o de pessoas com psoríase. Tais dados revelam a importância de auxiliar os pacientes psicologicamente e ao mesmo tempo de educar os familiares para que sejam capazes de compreender a dimensão dos aspectos da dor física e emocional enfrentada pelos espondilíticos.

Como um círculo vicioso, a experiência da dor pode aumentar o nível de emoções negativas, sensibilizando o indivíduo à ansiedade, tornando-o mais nervoso pela não eficácia de alguns tratamentos, estressado pelos pensamentos recorrentes negativos ante a cronicidade da dor e angustiado com o futuro que se mostra incerto e assustador. Ou seja, já se sabe que os distúrbios psico-emocionais contribuem negativamente para a melhoria e mesmo para as boas respostas das terapêuticas aplicadas. Se o paciente tiver consciência desse fato, uma vez que deseja melhorar, poderá buscar mais rapidamente um apoio psicológico para que este aspecto emocional não influencie negativamente as terapêuticas escolhidas pelo reumatologista. 

Assim, o papel do psicólogo ou psiquiatra que atue em conjunto com o reumatologista e fisioterapeuta será o de auxiliar os pacientes a:

1) criar recursos em nível emocional que ofereçam respostas às necessidades destes pacientes;

2) auxiliando-os no manejo do estresse, possibilitando assim uma percepção do controle de sua doença e mesmo autocontrole da dor;

3) oferecendo-lhes suporte que assegure uma relação em que ele possa dividir suas angústias, medos, dificuldades e conflitos com o fim de ter melhor aceitação e adaptação à moléstia; e

4) ajudá-los a ultrapassar as barreiras das disfunções psicológicas individuais e familiares que a espondilite anquilosante causa, para que o ambiente familiar possa ser curado, mesmo convivendo com a doença.

Fontes: 

*Espondilite Anquilosante Ontem e Hoje, Manual do Portador. Eduardo de Souza Meirelles e Valderílio Feijó Azevedo. Unificado Artes Gráficas e Editora, Curitiba, 2009.

*Tese de Doutorado, Vânia Maria Mayer. Transtornos psiquiátricos em pacientes com espondiloartrites atendidos no hospital universitário / Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campos Grande, Brasil. Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia – Universidade do Mato Grosso. http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFMS_6f3339aad44aa3c17238217232eb0b75/Details